Ao
longo dos últimos anos, definindo e aplicando um figurino alternativo
de atuação das Corretoras Oficiais da Bolsa do Comércio
de Pernambuco na direção de atender aos produtores de
hortifrutícolas da nossa região, deparamo-nos com freqüência
com a busca angustiada, de parte dos produtores, de desenvolver alternativas
de exportação para atender a uma suposta "saturação"
do mercado por "excesso de oferta".
Sempre
buscamos identificar no ambiente razões que dessem suporte a
tais preocupações e nada encontrávamos de lógico
que as justificasse.
Ao
nosso ver, o problema real é falta de consumo, provocada pela
ocorrência dos seguintes problemas relacionados á oferta
e comercialização de frutas no Brasil, onde sem dúvida
pontificam raras e honrosas exceções, as quais, apenas
justificam a regra:
·
A produção está atomizada em pequenas propriedades,
nem sempre atendidas por um aparato estrutural que lhes garanta acesso
a tecnologia de produção e vias de comercialização.
· A produção elege produtos baseando-se na tradição
de produção da região e/ou dos produtores, embora
o país e o mercado, por conseguinte, já não sejam
os mesmos de antigamente.
· A tradição e os costumes determinam parâmetros
de qualidade e padrões com absoluto desconhecimento quanto
ao que é requerido pelo mercado consumidor.
· Por outro lado não há compromisso para com
as poucas normas de classificação e padronização
existentes, disso resultando desconfiança do consumidor quanto
aos produtos.
· A dificuldade de distribuição, logística
etc., tornam o produtor presa fácil dos oportunistas especuladores
(leia-se atravessadores) em função da perversa combinação
da alta perecibilidade dos produtos com a angústia de não
saber a quem vender.
· Como claro exemplo da nossa pobre logística podemos
ressaltar que os nossos produtos são transportados:
- por grandes distâncias,
- em estradas mal conservadas,
- em carrocerias não apropriadas, de uma frota mal conservada,
- sem quaisquer recursos de preservação da carga (frio
p/ex.) e,
- muito freqüentemente , á granel.
Disso decorre grande parte do nosso propalado desperdício de
cerca de 30% de tudo o que é produzido.
·
A assistência prestada ao produtor, bem como as políticas
e programas de apoio ao pequeno agricultor (reforma agrária,
agricultura familiar, etc.) denotam uma preocupação
assistencialista que não promove a capacitação
empreendedora.
Por
efeito de tudo que acima está descrito o mercado e o consumo
é fracamente ou em nada trabalhado e/ou estimulados mantendo
baixos volumes de consumo em resposta ao baixo padrão de qualidade.
Isto explica em grande parte o fato de exibirmos a insólita situação
de tímido exportador e, até, importador de frutas a despeito
do nosso potencial de produção.
Apenas
para citar algumas questões mais acompanhadas e debatidas por
nós nos últimos anos:
·
Parece-nos extremamente contraditório que sejamos na realidade
o grande mercado do Mercosul (com uma população equivalente
a cerca de 5 vezes a soma dos demais países) e haja incitamento
a grandes esforços de exportação para esses países
("para não perder esses mercados", segundo dizem).
Enquanto isso, nada (ou quase nada) é feito no sentido de estimular
consumo no nosso mercado interno, tão grande e cobiçado
pelos nossos parceiros do Mercosul e até pelos grandes exportadores
como os EUA.
·
Somos, inclusive, grandes consumidores de produtos que substituem
nossas frutas e legumes sem que nada seja feito no sentido de realçar
as virtudes dos nossos produtos em relação a alguns
dos seus concorrentes. Disso é notório exemplo o caso
da água de coco versus o seu mais forte concorrente que são
os refrigerantes, isotonicos artificiais, etc. Somos o terceiro maior
mercado mundial da Coca Cola, por exemplo, e temos que antever grande
dificuldade para os produtores de coco, tão logo entrem em
produção os cerca de 20.000 ha da cultura, ora em implantação.
Parece-nos impróprio, que nos conformemos em não ser
um grande consumidor de sucos naturais e água de coco em lugar
dessas bebidas.
·
Sendo o nosso país um grande celeiro de produção
agrícola, em especial de frutas tropicais, é no mínimo
incômodo que sejamos grandes consumidores de frutas importadas,
nem sempre tão ricas e saborosas como as nossas.
·
Embora aceitando as exigências e restrições impostas
para exportar seus produtos, o nosso produtor em geral atenda tão
fracamente aos requisitos mais elementares de qualidade e conformidade
do mercado interno, o qual, aliás, ele sequer conhece bem.
Sem
a intenção de estabelecer receitas (afinal estas colocações
visam provocar reflexão) sentimo-nos obrigados a apontar aqui
os principais "gargalos", para esse segmento produtivo que
tem no nosso país grande espaço e importância econômica
e social:
1.
PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO - é necessário estabelecer
nos empreendimentos rurais, muitas vezes estimulados pelo crédito
oficial, uma cuidadosa avaliação dos aspectos mercadológicos
dos produtos, e da logística de comercialização
de cada região, além das análises técnicas
de vocações de solo, clima e tradição
produtiva hoje consideradas.
2. CLASSIFICAÇÃO, PADRONIZAÇÃO, EMBALAGEM
- uma urgente e decisiva mudança de postura dos segmentos do
agronegócio dos hortigranjeiros no sentido de oferecer produtos
de qualidade e conformidade confiáveis para proporcionar ao
nosso consumidor a opção de consumir nossos produtos
ao invés dos seus concorrentes, importados.
3. MARKETING, MERCHANDISING, PROMOÇÃO - reunião
dos segmentos produtores de forma coordenada e objetiva no sentido
de promover no nosso mercado interno o consumo desses nossos produtos
a partir desses novos e confiáveis parâmetros de qualidade.
4. COMERCIALIZAÇÃO - articulação dos produtores
num esforço de organizar a sua comercialização
diretamente junto aos demais segmentos da sua cadeia de agronegócio
de forma a eliminar a intermediação de caráter
especulativo, através das Bolsas de Mercadorias, e/ou Prestadores
de Serviços nesse âmbito.
5. POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO - é urgente
que o Poder Público desenvolva ações mais conseqüentes
no sentido de estabelecer estímulos consistentes ao EMPREENDEDORISMO
AGRÍCOLA ao invés do tratamento assistencialista hoje
em prática.
Se
estes pontos forem devidamente tratados, temos a convicção
de que em curto espaço de tempo estaremos atingindo a maturidade
na produção e comercialização de frutas
e legumes e contribuindo sensívelmente para uma significativa
melhora na sáude da nossa população além
dos ganhos econômicos que o aumento de resultados da atividade
produtiva poderá trazer.