Hortifrutícolas: afinal qual é o grande alvo?

Cláudio Michaello Macêdo
Administrador de Empresas, Bacharel em Direito.
Diretor Secretário da Bolsa do Comércio de Pernambuco

Ao longo dos últimos anos, definindo e aplicando um figurino alternativo de atuação das Corretoras Oficiais da Bolsa do Comércio de Pernambuco na direção de atender aos produtores de hortifrutícolas da nossa região, deparamo-nos com freqüência com a busca angustiada, de parte dos produtores, de desenvolver alternativas de exportação para atender a uma suposta "saturação" do mercado por "excesso de oferta".

Sempre buscamos identificar no ambiente razões que dessem suporte a tais preocupações e nada encontrávamos de lógico que as justificasse.

Ao nosso ver, o problema real é falta de consumo, provocada pela ocorrência dos seguintes problemas relacionados á oferta e comercialização de frutas no Brasil, onde sem dúvida pontificam raras e honrosas exceções, as quais, apenas justificam a regra:

· A produção está atomizada em pequenas propriedades, nem sempre atendidas por um aparato estrutural que lhes garanta acesso a tecnologia de produção e vias de comercialização.
· A produção elege produtos baseando-se na tradição de produção da região e/ou dos produtores, embora o país e o mercado, por conseguinte, já não sejam os mesmos de antigamente.
· A tradição e os costumes determinam parâmetros de qualidade e padrões com absoluto desconhecimento quanto ao que é requerido pelo mercado consumidor.
· Por outro lado não há compromisso para com as poucas normas de classificação e padronização existentes, disso resultando desconfiança do consumidor quanto aos produtos.
· A dificuldade de distribuição, logística etc., tornam o produtor presa fácil dos oportunistas especuladores (leia-se atravessadores) em função da perversa combinação da alta perecibilidade dos produtos com a angústia de não saber a quem vender.
· Como claro exemplo da nossa pobre logística podemos ressaltar que os nossos produtos são transportados:
- por grandes distâncias,
- em estradas mal conservadas,
- em carrocerias não apropriadas, de uma frota mal conservada,
- sem quaisquer recursos de preservação da carga (frio p/ex.) e,
- muito freqüentemente , á granel.
Disso decorre grande parte do nosso propalado desperdício de cerca de 30% de tudo o que é produzido.

· A assistência prestada ao produtor, bem como as políticas e programas de apoio ao pequeno agricultor (reforma agrária, agricultura familiar, etc.) denotam uma preocupação assistencialista que não promove a capacitação empreendedora.

Por efeito de tudo que acima está descrito o mercado e o consumo é fracamente ou em nada trabalhado e/ou estimulados mantendo baixos volumes de consumo em resposta ao baixo padrão de qualidade.

Isto explica em grande parte o fato de exibirmos a insólita situação de tímido exportador e, até, importador de frutas a despeito do nosso potencial de produção.

Apenas para citar algumas questões mais acompanhadas e debatidas por nós nos últimos anos:

· Parece-nos extremamente contraditório que sejamos na realidade o grande mercado do Mercosul (com uma população equivalente a cerca de 5 vezes a soma dos demais países) e haja incitamento a grandes esforços de exportação para esses países ("para não perder esses mercados", segundo dizem). Enquanto isso, nada (ou quase nada) é feito no sentido de estimular consumo no nosso mercado interno, tão grande e cobiçado pelos nossos parceiros do Mercosul e até pelos grandes exportadores como os EUA.

· Somos, inclusive, grandes consumidores de produtos que substituem nossas frutas e legumes sem que nada seja feito no sentido de realçar as virtudes dos nossos produtos em relação a alguns dos seus concorrentes. Disso é notório exemplo o caso da água de coco versus o seu mais forte concorrente que são os refrigerantes, isotonicos artificiais, etc. Somos o terceiro maior mercado mundial da Coca Cola, por exemplo, e temos que antever grande dificuldade para os produtores de coco, tão logo entrem em produção os cerca de 20.000 ha da cultura, ora em implantação. Parece-nos impróprio, que nos conformemos em não ser um grande consumidor de sucos naturais e água de coco em lugar dessas bebidas.

· Sendo o nosso país um grande celeiro de produção agrícola, em especial de frutas tropicais, é no mínimo incômodo que sejamos grandes consumidores de frutas importadas, nem sempre tão ricas e saborosas como as nossas.

· Embora aceitando as exigências e restrições impostas para exportar seus produtos, o nosso produtor em geral atenda tão fracamente aos requisitos mais elementares de qualidade e conformidade do mercado interno, o qual, aliás, ele sequer conhece bem.

Sem a intenção de estabelecer receitas (afinal estas colocações visam provocar reflexão) sentimo-nos obrigados a apontar aqui os principais "gargalos", para esse segmento produtivo que tem no nosso país grande espaço e importância econômica e social:

1. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO - é necessário estabelecer nos empreendimentos rurais, muitas vezes estimulados pelo crédito oficial, uma cuidadosa avaliação dos aspectos mercadológicos dos produtos, e da logística de comercialização de cada região, além das análises técnicas de vocações de solo, clima e tradição produtiva hoje consideradas.
2. CLASSIFICAÇÃO, PADRONIZAÇÃO, EMBALAGEM - uma urgente e decisiva mudança de postura dos segmentos do agronegócio dos hortigranjeiros no sentido de oferecer produtos de qualidade e conformidade confiáveis para proporcionar ao nosso consumidor a opção de consumir nossos produtos ao invés dos seus concorrentes, importados.
3. MARKETING, MERCHANDISING, PROMOÇÃO - reunião dos segmentos produtores de forma coordenada e objetiva no sentido de promover no nosso mercado interno o consumo desses nossos produtos a partir desses novos e confiáveis parâmetros de qualidade.
4. COMERCIALIZAÇÃO - articulação dos produtores num esforço de organizar a sua comercialização diretamente junto aos demais segmentos da sua cadeia de agronegócio de forma a eliminar a intermediação de caráter especulativo, através das Bolsas de Mercadorias, e/ou Prestadores de Serviços nesse âmbito.
5. POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO - é urgente que o Poder Público desenvolva ações mais conseqüentes no sentido de estabelecer estímulos consistentes ao EMPREENDEDORISMO AGRÍCOLA ao invés do tratamento assistencialista hoje em prática.

Se estes pontos forem devidamente tratados, temos a convicção de que em curto espaço de tempo estaremos atingindo a maturidade na produção e comercialização de frutas e legumes e contribuindo sensívelmente para uma significativa melhora na sáude da nossa população além dos ganhos econômicos que o aumento de resultados da atividade produtiva poderá trazer.